Golpistas têm recorrido a ferramentas de inteligência artificial para elaborar perfis que simulam mulheres com deficiência e atrair seguidores interessados em conteúdo adulto. Nas publicações, as supostas influencers aparecem em vídeos emocionais, chorando e relatando sentimentos de solidão, enquanto perguntam se a condição de pessoa com deficiência (PcD) as impede de encontrar um parceiro.
As personagens criadas variam entre mulheres amputadas, cadeirantes, com vitiligo, nanismo ou até gêmeas siamesas, todas geradas de forma digital com aparência realista. Ao interagirem nos comentários, muitos usuários elogiam a beleza ou fazem investidas sexuais, reforçando a fetichização dessas imagens.
De maneira discreta, esses perfis divulgam links que prometem acesso a grupos pagos com fotos e vídeos adultos. Em alguns casos, o material existe; em outros, não passa de fraude. Um internauta relatou ter enviado pagamento via Pix após clicar em um link indicado por uma criadora que se identificava como “Luiza”. O robô de Telegram, porém, devolveu apenas um link expirado.
Fetiche e objetificação
Segundo dados do IBGE, o Brasil conta com 8,3 milhões de mulheres com deficiência, protegidas pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência. No entanto, especialistas apontam que muitas postagens reforçam estigmas, transformando corpos marginalizados em produtos digitais.
A psicóloga e sexóloga Priscilla Souza, que vive com deficiência, alerta para os riscos dessa representação: “Esses conteúdos distorcem a realidade e criam uma visão equivocada sobre a sexualidade. O público acaba reforçando o fetiche e a ideia de que somos seres ‘exóticos’ ou ‘bizarros’.”
Rosana Lago, presidente da Frente Nacional das Mulheres com Deficiência, ressalta que a simulação de corpos PcD para fins de lucro fere a dignidade e prejudica a autoestima de mulheres reais: “Quando a deficiência é o único elemento de interesse e a reduz a um objeto, isso é um problema grave.”
Aspectos legais e combate ao golpe
Criar perfis com inteligência artificial não configura crime, mas adotar práticas enganosas com intenção de obter vantagem econômica caracteriza estelionato. A advogada Mariana Piovezani Moreti, especialista em propriedade intelectual, explica que o uso de persuasão abusiva, especialmente ao explorar a condição de pessoa com deficiência, agrava a situação e pode ser enquadrado como publicidade enganosa ou fraude.
Imagem: Imagem ilustrativa
Para as vítimas, o recomendado é solicitar estorno ao banco, registrar reclamação no Procon e guardar todos os comprovantes de pagamento e conversas. Identificar os responsáveis depende de ação judicial, permitindo que plataformas e instituições financeiras forneçam os dados dos fraudadores.
Moreti também orienta a observar sinais de manipulação em imagens: mãos com formatos estranhos, assimetrias sutis ou fundos borrados de forma irregular podem indicar que o perfil foi gerado por IA.
Enquanto isso, plataformas de redes sociais seguem removendo rapidamente esses perfis, que reaparecem em novos formatos. A conscientização sobre o tema tem sido apontada como principal estratégia para evitar novos golpes.
Com informações de Fatosdenobres





